Rússia e Coreia do Norte inauguram ponte sobre o rio Tumen e abrem caminho para uma nova rota de passageiros
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| Imagem reprodução internet Ponte liga Rússia e Coréia do Norte |
Rússia e Coreia do Norte deram nesta segunda-feira (7) mais um passo na aproximação entre os dois países com a inauguração da primeira ponte rodoviária construída para ligar diretamente os dois territórios. A estrutura atravessa o rio Tumen, também conhecido como Tumanaya, na fronteira entre os países, e inicialmente será utilizada para o transporte de cargas.
Mas a nova ligação pode ganhar uma função muito maior nos próximos meses. A expectativa anunciada pelos russos é de que o tráfego de passageiros também seja permitido até o fim de 2026, o que abre a possibilidade de criação de linhas de ônibus e de novos deslocamentos por estrada entre os dois países.
A ponte tem aproximadamente 1 quilômetro de extensão, duas pistas e capacidade estimada para até 300 veículos por dia. Ela liga a região russa de Khasan à área de Tumangang, próxima a Rason, no extremo nordeste da Coreia do Norte. A obra começou em abril de 2025, depois de um acordo firmado pelos dois governos, e foi batizada de Yakov Novichenko, em homenagem a um soldado soviético considerado herói na Coreia do Norte.
Por enquanto, portanto, não é possível simplesmente chegar à fronteira de carro ou ônibus, apresentar o passaporte e atravessar. A operação inaugurada agora é voltada para cargas. A utilização por passageiros ainda depende da implantação dos procedimentos de fronteira e da autorização para esse tipo de circulação.
É justamente aí que a história fica interessante. Rússia e Coreia do Norte já possuem ligações aéreas e ferroviárias para passageiros. A diferença é que, com a nova ponte, os dois países passam a contar também com uma ligação rodoviária própria.
No caso dos trens, a conexão de passageiros foi retomada em junho de 2025, depois de ficar suspensa desde fevereiro de 2020 por causa da pandemia. A ligação direta entre Pyongyang e Moscou voltou a operar em 17 de junho daquele ano, com viagens duas vezes por mês. O percurso ultrapassa 10 mil quilômetros e leva cerca de oito dias, sendo considerado o mais longo trajeto ferroviário direto entre capitais do mundo. Também foi retomada a ligação entre Pyongyang e Khabarovsk, na Rússia, com viagens mensais. Os passageiros viajam em vagões de cabine pertencentes às ferrovias norte-coreanas.
Há ainda uma ligação ferroviária muito mais curta entre os dois países, na região de Khasan, na Rússia, e Tumangang, na Coreia do Norte. É justamente nessa região que fica a antiga Ponte da Amizade, inaugurada em 1959 e utilizada para a conexão ferroviária entre os dois lados da fronteira.
Ou seja: o trem que atravessa a fronteira não é apenas um trem de carga. Há, sim, transporte de passageiros entre Rússia e Coreia do Norte.
Para quem pensa em fazer essa viagem, porém, existe uma diferença enorme em relação a uma viagem internacional convencional. A Coreia do Norte não funciona como um destino turístico aberto, no qual o viajante compra uma passagem aérea ou ferroviária, reserva um hotel e entra por conta própria.
No caso dos turistas russos, as viagens são organizadas por meio de operadores turísticos autorizados. Segundo o setor turístico russo, o viajante precisa procurar uma operadora credenciada para trabalhar com a Coreia do Norte, apresentar a documentação necessária para o visto com antecedência a recomendação é de pelo menos um mês e aguardar a aprovação da viagem. Mesmo quando a entrada é feita de avião ou trem, o deslocamento turístico é organizado previamente e segue um roteiro aprovado.
E isso também explica por que a existência de uma ponte não significa que a Coreia do Norte tenha simplesmente aberto sua fronteira para turistas de todo o mundo.
Na prática, os russos estão hoje em uma situação bastante particular. A aproximação entre Moscou e Pyongyang fez com que o turismo russo na Coreia do Norte crescesse nos últimos anos. Em 2025, mais de 7 mil russos visitaram o país, segundo dados citados pelo setor turístico russo, e a procura continuou aumentando em 2026. Há inclusive pacotes para praias, resorts, Pyongyang, regiões montanhosas e viagens de trem.
No transporte aéreo, a mesma lógica vale. Durante anos, a principal ligação entre os dois países foi o voo da companhia norte-coreana Air Koryo entre Vladivostok e Pyongyang. Em julho de 2025, foi inaugurado também o primeiro voo direto entre Moscou e Pyongyang em décadas, operado pela russa Nordwind. O voo leva cerca de oito horas e começou com frequência mensal.
Mas mesmo com avião, a viagem turística não funciona como uma rota internacional comum. Para os russos, a entrada turística continua vinculada a uma viagem previamente organizada, com documentação e autorização. Em outras palavras, ter um avião disponível não significa que o passageiro possa simplesmente comprar uma passagem e decidir sozinho o que fará ao desembarcar em Pyongyang.
A nova ponte pode acrescentar uma quarta possibilidade logística para os visitantes: o ônibus.
Ainda não há, neste momento, uma linha turística regular de ônibus atravessando a nova estrutura. O que existe é a previsão de abertura do tráfego de passageiros e a expectativa do setor turístico russo de que a nova ligação permita criar novos roteiros terrestres entre o Extremo Oriente russo e a Coreia do Norte. Operadores turísticos já avaliam que a ponte poderá aumentar o fluxo de grupos entre os dois países.
Isso pode ser especialmente importante para Rason, cidade norte-coreana localizada perto da fronteira russa. A região já recebe turistas russos e está entre as áreas mais acessíveis para esse tipo de viagem. Uma ligação rodoviária própria pode facilitar a criação de excursões que saiam de cidades do Extremo Oriente russo e atravessem a fronteira por estrada, em vez de depender exclusivamente do trem ou do avião.
E os carros? Tecnicamente, a ponte foi construída justamente para o tráfego rodoviário, portanto sua existência cria essa possibilidade. Mas ainda é cedo para dizer que turistas poderão pegar seus próprios veículos, chegar a Khasan e dirigir livremente até a Coreia do Norte. A autorização para carros particulares, as regras de alfândega, seguro, circulação e, principalmente, as condições impostas pela Coreia do Norte ainda precisam ser definidas para esse tipo de viagem.
Há também uma mudança física importante na fronteira. Durante décadas, a principal ligação terrestre entre os dois países foi a ponte ferroviária. Como não havia uma ponte rodoviária dedicada, veículos chegaram a utilizar a estrutura ferroviária em determinadas operações, com uma solução bastante peculiar: tábuas eram colocadas sobre os trilhos para permitir a passagem de veículos. A nova ponte acaba com essa improvisação e cria uma estrada própria entre os dois países.
A inauguração acontece em um momento em que Moscou e Pyongyang estreitam suas relações políticas, econômicas e estratégicas. Desde 2022, a aproximação aumentou consideravelmente, e os dois governos vêm ampliando acordos e intercâmbios. A nova ponte, portanto, não deve ser vista apenas como uma obra para transportar mercadorias. Ela faz parte de uma rede de conexões que já inclui aviões e trens de passageiros e que agora poderá ganhar uma nova modalidade.
Por enquanto, os caminhões são os protagonistas da travessia. Mas, se o cronograma anunciado for cumprido, ainda em 2026 passageiros poderão começar a utilizar a ponte.
E aí uma cena que até pouco tempo parecia improvável pode se tornar realidade: um ônibus saindo da Rússia, chegando à fronteira, atravessando o rio Tumen e entrando na Coreia do Norte por uma estrada construída especificamente para isso.
A ponte está pronta. O que ainda falta é saber como, quando e para quem essa nova fronteira rodoviária será aberta.
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