Pesquisa científica aponta país com maiores chances de sobreviver a uma catástrofe mundial; Brasil também aparece entre os favoráveis
| Brasil aparece entre os países favoráveis para sobreviver em caso de catástrofe mundial |
Se um dia o mundo enfrentasse uma catástrofe de proporções globais, haveria lugares com condições melhores do que outros para manter sua população e parte de sua estrutura funcionando?
Foi justamente essa pergunta que pesquisadores buscaram responder em uma revisão publicada recentemente na revista científica Global Challenges, da Wiley. O trabalho analisou diferentes estudos sobre a capacidade de sociedades resistirem e se recuperarem de eventos capazes de provocar impactos em escala mundial. A publicação é uma revista científica multidisciplinar e de acesso aberto, com trabalhos submetidos à revisão por pares. Sua área de atuação envolve alguns dos grandes desafios enfrentados pela humanidade, como mudanças climáticas, segurança alimentar, energia, água, saúde e desenvolvimento tecnológico. O estudo recebeu o título “No Place to Hide? Regional Resilience and Vulnerability to Global Catastrophic Risk” e foi elaborado por pesquisadores de instituições como a Goethe University Frankfurt, University of Cambridge, University of Birmingham, King's College London e outras organizações ligadas ao estudo de riscos globais. Para chegar às conclusões, os pesquisadores fizeram uma ampla revisão da literatura científica. Uma busca inicial encontrou cerca de 3.200 documentos. Depois das etapas de seleção e análise, 147 trabalhos foram considerados relevantes para a revisão. Os autores dividiram os grandes riscos analisados em três grupos. O primeiro envolve eventos capazes de reduzir drasticamente a quantidade de luz solar que chega à superfície, como uma guerra nuclear, grandes erupções vulcânicas e impactos de objetos próximos da Terra. O segundo trata da perda catastrófica de infraestrutura, incluindo apagões prolongados, ataques cibernéticos, pulsos eletromagnéticos e tempestades geomagnéticas. O terceiro envolve grandes riscos biológicos, como pandemias de proporções muito superiores às conhecidas recentemente. A análise procurou observar não apenas o perigo em si, mas principalmente o que poderia fazer uma sociedade resistir, manter serviços essenciais e se recuperar depois de um evento extremo. Entre os fatores que mais apareceram nos estudos estavam o isolamento geográfico, a capacidade de produzir alimentos, a qualidade da governança, a menor desigualdade social, a disponibilidade de recursos, a infraestrutura, a capacidade industrial e a descentralização dos sistemas, evitando que uma única falha possa comprometer todo o funcionamento de um país. E foi quando esses diferentes fatores foram colocados lado a lado que um país passou a se destacar. Por que a Austrália aparece como a mais resilienteA Austrália aparece na revisão como o país com o conjunto mais amplo de características favoráveis diante dos diferentes cenários analisados. Um dos principais fatores é a sua localização. O país está no Hemisfério Sul e fica distante das principais áreas de possíveis conflitos nucleares consideradas pelos estudos. Além disso, a região apresenta menor exposição a grandes áreas vulcânicas quando comparada a outras partes do planeta. O território australiano também pesa a favor. O país possui uma enorme extensão territorial e um grande interior continental, o que poderia oferecer áreas para deslocamento da população em determinados cenários, inclusive no caso de um impacto de grande proporção. Outro ponto considerado importante é a produção de alimentos. A Austrália é uma grande produtora agrícola e possui diferentes zonas climáticas e uma longa temporada de cultivo em várias áreas. Para os pesquisadores, essa diversidade aumenta as possibilidades de adaptação da produção de alimentos diante de mudanças bruscas nas condições climáticas. A estrutura energética também aparece como uma vantagem. O país possui importantes reservas e infraestrutura relacionadas a carvão e gás, além de grandes áreas florestais que poderiam representar recursos adicionais em determinados cenários. A Tasmânia, que faz parte da Austrália, também chama atenção na análise. Por ser uma ilha, possuir clima temperado e apresentar produção agrícola significativa, os autores consideram que ela poderia funcionar, em determinadas circunstâncias, como uma espécie de “refúgio dentro do refúgio”. Mas existe um detalhe importante: a Austrália não seria um lugar livre de riscos. Os próprios pesquisadores ressaltam que o país continua dependente do comércio internacional para produtos essenciais, como medicamentos, combustíveis e fertilizantes. Além disso, a Austrália possui vulnerabilidades relacionadas a incêndios florestais, secas, enchentes e outros impactos das mudanças climáticas. Ou seja, a conclusão do estudo não é que seria possível simplesmente se mudar para a Austrália e estar seguro diante de qualquer catástrofe. A conclusão é que, entre os locais analisados na literatura, o país reúne uma combinação particularmente favorável de características de resiliência. E o Brasil também aparece nessa análise. País tem características que podem favorecer a sobrevivênciaO Brasil aparece entre os países considerados com características favoráveis em determinados cenários de catástrofe global, ao lado de Argentina e Nova Zelândia. Um dos principais pontos positivos está justamente em algo que o Brasil conhece muito bem: sua dimensão territorial. O país está majoritariamente no Hemisfério Sul, possui uma das maiores extensões territoriais do planeta e apresenta uma enorme variedade de climas, biomas e regiões agrícolas. Essa diversidade pode ser importante em um cenário de crise alimentar provocado por uma grande redução da luz solar e queda das temperaturas. Segundo a revisão, países com diferentes zonas climáticas, longas temporadas de cultivo e grande diversidade de culturas agrícolas podem ter mais alternativas para adaptar sua produção. O Brasil também aparece diretamente na literatura analisada como exemplo de país com um grande setor de produção de alimentos e diversidade de culturas. Essa capacidade seria uma vantagem importante caso as cadeias internacionais de abastecimento fossem severamente afetadas. Outro fator é a posição geográfica. Assim como Argentina e outros países do Hemisfério Sul, o Brasil estaria relativamente distante de algumas das regiões consideradas mais expostas a determinados conflitos e eventos capazes de desencadear um cenário de redução abrupta da luz solar. O tamanho do território também significa que existem diferentes possibilidades de recursos naturais, áreas agrícolas, fontes de energia e regiões menos densamente povoadas. Isso poderia favorecer estratégias de adaptação e deslocamento da população em determinados cenários. Mas os pesquisadores também apontam problemas. O Brasil e a Argentina apresentam características favoráveis em vários dos critérios observados, mas enfrentam desafios relacionados principalmente aos níveis de desigualdade e ao histórico de instabilidade política. Esses fatores podem dificultar a capacidade de uma sociedade organizar uma resposta eficiente diante de uma crise extrema. Ainda assim, o Brasil aparece como um dos países que melhor combinam localização no Hemisfério Sul, produção de alimentos, diversidade climática e grande disponibilidade territorial. A conclusão geral da pesquisa, porém, talvez seja mais importante do que descobrir qual país ficaria em primeiro lugar. Os pesquisadores afirmam que não existe um lugar na Terra capaz de resistir sozinho a todos os tipos de catástrofe global. Mesmo os países considerados mais resilientes continuariam dependendo, em algum nível, de comércio, cooperação internacional e cadeias de abastecimento. Em um mundo cada vez mais conectado, até mesmo um país distante e com grande capacidade de produzir seus próprios alimentos pode enfrentar dificuldades se ficar completamente isolado. Por isso, a preparação para uma catástrofe global não depende apenas de encontrar um lugar considerado seguro. Depende também de alimentos, energia, infraestrutura, comunicação, capacidade industrial, planejamento e, principalmente, cooperação entre países. No fim das contas, talvez a grande mensagem da pesquisa seja justamente essa: não existe um lugar para onde simplesmente fugir. Existem sociedades mais preparadas do que outras. |
Leia também - Terremoto de 6,1 em Lima: como foi viver o tremor e o alerta para quem viaja ao Peru
Leia também - Pesquisa revela os hábitos que mais irritam passageiros em aviões