Desde abril, brasileiros que utilizam celulares Android compatíveis podem criar um Passe de Identificação na Carteira do Google, utilizando um passaporte válido como base para a criação da credencial. O processo não consiste simplesmente em fotografar o documento: é necessário digitalizar a página de identificação, ler o chip de segurança do passaporte por NFC e fazer uma verificação facial.
Depois de criado, o passe fica criptografado e armazenado no próprio aparelho. Ele pode ser utilizado para comprovar determinadas informações de identidade ou idade em serviços que aceitem esse tipo de credencial. Uma das vantagens está justamente na possibilidade de compartilhar apenas as informações necessárias para determinada verificação, em vez de apresentar todos os dados do documento.
É uma mudança interessante porque mostra como documentos físicos começam a ganhar versões digitais capazes de preservar melhor a privacidade do usuário. No caso do Google, a tecnologia também utiliza o chamado Zero Knowledge Proof, que permite, em determinadas verificações, confirmar uma informação sem revelar toda a identidade da pessoa.
Mas existe uma informação que o viajante precisa guardar: isso não transformou o celular em um passaporte para viagens internacionais.
O próprio Google é claro ao informar que o Passe de Identificação não é um documento oficial, não substitui a documentação física e não pode ser utilizado para imigração, viagens ou documentação governamental. Portanto, se a viagem exigir passaporte, não adianta chegar ao aeroporto apenas com o celular.
Por que ainda não está disponível no iPhone?
Por enquanto, a novidade está restrita ao ecossistema Android. Para criar o Passe de Identificação, o Google exige um aparelho com Android 9 ou versão posterior e tecnologia NFC, além de Bluetooth e bloqueio de tela para utilização do recurso.
E aqui vale uma ressalva importante: o Google não apresentou, até o momento, uma justificativa específica para a ausência do recurso no iPhone nem anunciou uma previsão para a chegada à Apple. O que existe oficialmente é a disponibilidade do Passe de Identificação dentro da Carteira do Google para aparelhos Android compatíveis.
Isso também significa que não basta ter qualquer Android. O aparelho precisa atender aos requisitos técnicos do Google, especialmente contar com NFC para fazer a leitura do chip do passaporte.
Por que o passaporte físico continua sendo primordial e quando ele não é indispensável?
Para quem vai viajar para um país que exige passaporte, o documento físico continua sendo indispensável. O Passe de Identificação do Google não serve para passar pela imigração, substituir o documento no embarque ou comprovar o direito de entrada em outro país. É uma credencial digital para determinadas situações de identificação, e não um documento de viagem.
Existe, porém, uma situação que costuma gerar confusão: brasileiros não precisam necessariamente de passaporte para viajar a turismo para os países do Mercosul e associados, desde que apresentem uma cédula de identidade válida, em bom estado e com fotografia que permita identificar claramente o titular. A Polícia Federal inclui nessa regra países como Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai.
Isso não significa que o celular passe a substituir o documento. Se você viajar, por exemplo, ao Peru apenas com sua identidade, é a identidade física que será o documento utilizado — e não o Passe de Identificação criado na Carteira do Google.
Para viagens internacionais que exigem passaporte, portanto, a recomendação continua simples: leve o documento físico e não conte com a versão digital do Google para embarcar ou passar pela imigração.
A novidade é, sim, importante. Ela representa mais um passo na transformação dos documentos em credenciais digitais e pode facilitar situações do dia a dia nas quais seja necessário comprovar idade ou identidade. Para quem viaja, entretanto, ainda é preciso separar duas coisas que parecem iguais, mas não são: ter o passaporte cadastrado no celular é uma facilidade; ter um passaporte válido para viajar continua sendo outra história.