Minha vida no Japão

 

Undokoen Station - Kiriu - Japão

"O Brasil dá de 1000 a 0 em gestão empresarial"


                        Japão a 'Terra do Sol Nascente' tem mais de 6000 ilhas, sendo cerca de 400 habitáveis. O país é dono de uma das montanhas mais conhecidas no mundo, o Monte Fuji e possui a décima maior população mundial, com cerca de 128 milhões de habitantes. Só a capital, Tóquio, que foi sede das Olimpíadas este ano, tem mais de 30 milhões de moradores, e é uma das capitais mais populosas do mundo. 

A capital do Japão, Tóquio, tem mais de 30 milhões de moradores de acordo com o site
'Archdaily' (2021)



                        Atualmente o país está na terceira posição entre as maiores potências econômicas mundiais, com um PIB de mais de 5 trilhões de dólares. Com ótima economia, o Japão, registra baixíssimos números de insegurança e criminalidade, tornando-se um dos países mais seguros do mundo. Em pesquisa realizada pelo site 'Global Peace Indu (GPI), de 2020, o país oriental ocupou a nona posição, um dos fatores? 

                O país tem uma das menores taxas mundiais de crimes por armas de fogo do mundo. O Japão apresenta apenas 0.28 homicídios para cada 100 mil habitantes. Com relação a segurança, a única preocupação tange a desastres naturais, como frisa nossa entrevistada. 
                "Os órgãos responsáveis são muito precisos nas informações referentes a isso e a previsão do tempo no geral. Algumas causam mais preocupação sim"


                    Em 2019, a capixaba, Paula Mantovani, aos 38 anos, deixou o Espírito Santo para morar na cidade de Aichi-Ken, no Japão. Paula se encontraria com o marido, Kenji, que já estava no país à sua espera. Mas essa  história contarei em seguida, pois ela se inicia ainda no Brasil. 
                    De acordo com dados da 'Receita Federal' e compartilhado pelo site 'G1', em 2018, ano anterior à viagem de nossa entrevistada para o Japão, mais de 20 mil brasileiros tinham entregado declaração de saída definitiva do Brasil e o país oriental estava na lista dos países mais desejados. Na época, o governo japonês recrutava estrangeiros para atuarem em 14 áreas de trabalho, entre elas eletrônicas e automotivas. 
                "Houve uma mudança drástica no perfil de quem decide ir para o Japão. Antes o objetivo era conseguir acumular algum dinheiro, hoje são famílias inteiras que querem sair do Brasil em busca de qualidade de vida", afirmou o sócio da agência TGK, naquela época para a publicação. 
                Em compensação, brasileiros que chegam ou ainda estão no Brasil e imaginam que chegarão ao país e será tudo moleza, que apenas irão conduzir robôs em seus ofícios, estão enganados, como alerta a brasileira. "As pessoas acham que o Japão é de outro planeta. De tecnológico não tem nada. Acham que as pessoas controlam robôs nas fábricas, mas é tudo trabalho braçal, humano... Quase não existe serviço que você faça sentado aqui", garante!
                
Imagem reprodução Internet


                        Paula Mantovani, trabalhava no Brasil na área de RH, na capital do Espírito Santo. Formada no setor, se inscreveu no curso de Psicologia e sonhava em conhecer o Japão. Estudou com o marido, quando ambos tinham 4 anos de idade. O tempo passou, 30 anos depois se reencontraram, namoraram e se casaram.

Casamento com o colega que estudou quando criança, Kenji


                        Kenji já havia morado no Japão e na sua volta ao Brasil, não conseguiu se adaptar e os dois decidem morar no país. 
                        "Eu embarquei nessa. Desisti do curso de psicologia e vim para cá", conta a morena. 
                        Após o casamento, Kenji, vai na frente para auxiliar a amada na conquista do visto, já que o Japão é extremamente rigoroso na solicitação. Só para se ter uma ideia, no mesmo período onde Paula foi morar no país, apenas 17 vistos foram concedidos a bisnetos de japoneses, quando a expectativa era muito maior. (Fonte G1). 



                                    E para conseguir o visto de permanência no país, algumas exigências podem ser consideradas absurdas e dificultam o sonho. "O Japão tem disso, de ter tipo um avalista, um responsável por você", afirma Mantovani. 
                        Se você tem sonho ou pensa em morar no Japão, o país do sol nascente é bom atentar-se aos conselhos da capixaba. 

Minha vida no Japão
por/Paula Mantovani



Roger - Qual é a visão que os brasileiros têm do Japão?

Paula - As pessoas acham que o Japão é de outro planeta. De tecnológico não tem nada. Acham que as pessoas controlam os robôs nas fábricas, mas é tudo braçal, humano. Quase não existe um serviço que você faça sentado aqui. Para construir algo, que seja um celular ou um carro, tem que ter muito suor, muita dor, muito sacrifício do sono, da família, do psicológico, do cansaço, da exigência dos chefes. O Brasil dá de 1000 a 0 em gestão empresarial.

                        Paula trabalha em uma empresa que produz modelos
                de peças de carros para a Toyota

      "A Toyota é uma montadora e várias outras empresas fazem peças que vão para ela montar os carros. Por isso tantas indústrias aqui. Cada parte do carro, uma porta, o para-choques, o teto, as maçanetas, os vidros, os câmbios. São todos lugares diferentes que fazem e enviam para a Toyota montar seus modelos de carros. Eu trabalho montando uma dessas parte", explica. 

               De acordo com Paula, o trabalho não é 100% tecnológico, como imaginam a maioria dos brasileiros. 

       "Aqui o mínimo detalhe de algo que é construído é montado, colado a mão". 

Roger - E você veio do RH, ver essa comparação não frustra?

Paula - Nossa e como frustra! Eu era o da área do RH. Aqui, o que você acha quer sugerir, então você guarda para você! Japonês é extremamente sistemático. Sofri muito no começo por falar e não fazer diferença alguma. Com o tempo fui me adaptando e indo ao trabalho fazer o que era necessário, indo para casa mais tranquila. Hoje olho as situações, respiro e tento deixar para lá (risos). 

Roger - Será que muito disso é pela redução de custos? Ou é por ser mais provinciano mesmo?

Paula - Acredito que um pouco de cada. Dificilmente algo é construído em um único lugar. Um carro mesmo, cada parte dele é feito em empresas diferentes, para só depois unir todas as peças. São de diversas cidades diferentes essas partes. São muitas empresas, que muitas vezes não param. Tem turnos 24 horas por dia, todos os dias da semana. 

Roger - Eles são muito reservados né?

Paula - Demais! As informações administrativas  não vazam. Tudo o que sai na mídia também é especulação. No fundo, a gente nunca sabe a real justificativa de certas questões, daí nem questiono. 

Roger - Como foi esse processo de visto, quanto tempo demorou e qual a documentação foi necessária?

Paula - Cada estado do Brasil é atendido por um consulado, então o Espírito Santo se reporta do Rio de Janeiro. Mas as exigências são diferentes para quem se reporta à São Paulo, ao Paraná. Algumas exigências são comuns e outras não. No nosso caso, devia ter um ano de casado, eu devia ter um local de trabalho já certo, meu esposo deveria ser o responsável por mim. Tem que provar renda suficiente para se manter, local onde vai morar. Quando ele conseguiu chegar e se estabilizar demorou uns 3 meses para dar entrada para o Japão emitir uma autorização para eu vir. Demorou mais três meses para o Japão emitir o documento que autorizava minha entrada, eu tinha três meses para vir, se não perdia a validade. 

Roger - E quanto tempo ficaram longe um do outro?

Paula - Ficamos sete meses longe.

Ao fundo na foto do casal, a Usina Nuclear de Fukui
Ela é a primeira usina do país a operar além do período de
40 anos de atividade.



Roger - E de quanto seria a renda para se confirmar?

Paula - Seria no caso da moeda daqui, o Iene. Acima de 250 mil (mais de R$ 12 mil), a média para manter duas pessoas à princípio. Aqui ele já tinha o visto permanente, então ele era responsável por mim. O Japão tem disso de ter um tipo de avalista, um responsável por você. 

           Paula conta que após ter sido liberada,  
         foi no consulado no Rio de Janeiro dar
              entrada em seu visto. Na semana seguinte
                        ela já embarcava para uma nova vida no Japão.

Roger - Tem muita gente que não sabe essa informação sobre essa quantia para se manter no país. É a mesma informação para quem está indo viajar para o Japão? Também é preciso de 'avalista', ou apenas se for para estudo ou morar?

Paula - Cada visto é diferente! Para turista, todo plano de viagem, onde vai visitar, se hospedar, tudo tem que estar no plano de viagem, para dar entrada no visto. Não é só vir e depois escolher o que vai fazer. E também já tem que ter a passagem de ida e volta. Você não pode exercer a atividade remunerada com certos tipos de vistos. São vários tipos e cada um com exigências diferentes. 

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                            De acordo com a capixaba, a maioria dos imóveis
                   no país, exigem três meses de aluguel adiantado 

Roger - Já entrevistamos pessoas que foram a outros países com visto de turistas e ficaram ilegalmente no país. Existem esses casos no Japão também?

Paula - Existem! Geralmente filipinos e vietnamitas são muito explorados aqui! Algumas empresas contratam ilegalmente e se for pego pelo governo, são todos presos. 

Roger - Quais são as consequências para o imigrante ilegal?

Paula - As leis são bem rigorosas aqui. Para você ter uma ideia, cada cidade tem uma prefeitura e lá consta todos os seus dados, sua residência, quanto você ganha, com quem você mora na sua casa, tudo... São dados que a polícia tem total acesso inclusive. Essa parte acho muito legal. Por que em caso de desastre ou outra necessidade, fica mais fácil te localizar. 

Roger - Mas aí como as pessoas que vivem ilegalmente não são descobertas se as autoridades possuem todos os dados?

Paula - Quando entramos no país, recebemos uma identidade com o registro do endereço. Se você mudar de cidade, tem 14 dias para informar a mudança e se registrar, na outra prefeitura. Alguns ilegais, acabam falsificando esse documento, mas se for descoberto é prisão. Outra questão é que o Ministério do Trabalho aqui não é efetivo, não fiscaliza nada. Muitas pessoas perdem direitos trabalhistas aqui por isso. 
            Uma das questões é sobre ser um país onde a jornada de trabalho é bem rigorosa até para japoneses. Mas as leis ficam só no papel, com a falta de fiscalização, a ilegalidade acaba passando. 

Roger - Vocês têm no círculo de amizade de vocês alguém que vive de forma ilegal?

Paula - Não que eu saiba! Muitas pessoas que conheço tem visto permanente. E outra coisa é que estrangeiro é contratado por uma empreiteira, então a própria empreiteira ás vezes fica responsável pela renovação desses vistos. Por isso que muitas empreiteiras estão por trás da ilegalidade que ocorre. Elas são responsáveis pela pessoa nesse caso. 

Roger - Quando você chegou no Japão, tinha algum lugar em especial que você sonhava em conhecer?

Paula - Tóquio com certeza! Mas ainda não fui e nem a outras cidades praticamente. O Covid acabou atrapalhando os planos, nem trem bala consegui andar (risos). 

 Roger - Você disse que sempre teve o sonho de morar no Japão, por qual motivo?

Paula - Sempre achei que o Japão fosse um exemplo de país, 'zen', que tinham a mente aberta à área de psicologia e outros tipo de estudo da área humana, tinha essa curiosidade. Porém, estando aqui, vejo que não é assim: vejo um povo muito cobrado culturalmente, profissionalmente... Existe muito bullying aqui! 
                                 Quando vejo os casos de suicídio individual, ou coletivo, ou até mesmo famílias que um membro mata todos os outros, percebo que está longe de ser uma nação com a visão que o mundo tem daqui. 

                        "De acordo com a 'Organização para ao Cooperação
                e Desenvolvimento Econômico (OCDE)', o Japão tem
                uma das mais elevadas taxas de suicídio do mundo.  
                        Tornando-se algo que abre precedentes para vários debates
                        já que o país inclusive acredita que a morte é uma 
                passagem para outra experiência ou existência


        Dados da BBC, informam que em 2014, mais de 25 mil
            japoneses tiraram a vida no país. Já a CNN Brasil, informa
            que em outubro de 2020, foram mais de 2000 mil mortes
             apenas neste mês. "

 
"Um dia vi o Bolsonaro falando que nunca viu um japonês pedir esmola. Não sabe ele que não dá tempo de pedir esmolas. As famílias morrem muitas vezes pelas maõs dos pais, ou os filhos matam os pais idosos porque são um peso. É triste!".

Roger - Como são esses casos de bullying, são cometidos mais sobretudo entre os mais jovens?

Paula - Sim! Entre crianças também... nas ruas vão implicando, batendo... jovens também. Muito bullying pela internet. Apesar de ser um povo com fama de bonzinho, educado, não sei de onde sai tanta crueldade na cabeça das crianças e jovens. Com estrangeiros também é complicado. Acompanho grupos aqui no Japão pelo Facebook, onde muitos mais relatam que vão na escola denunciam, trocam de escolas e as vezes de cidade por causa disso. 

Roger - Esse choque de realidade mexeu com você?

Paula - Mexeu muito! Hoje eu entendo que é da cultura deles. A gente vive do que tem contato, experiência! E essas são as experiências do povo japonês. Infelizmente difícil de mudar! Claro que alguns tem a mente aberta e conseguiram se libertar desse sistema que viviam. Viram que existem outras possibilidades no mundo. Fico muito feliz quando vejo como a cultura brasileira libertou a mente de alguns. É muito bom vê-los mais leves sabe, dando outro rumo á vida, porque enxergam que você não precisa permanecer em algo que não te faz bem. E os japoneses quando conhecem brasileiro assim, mudam muito. Temos uma fama ruim para quem não conhece, e uma fama boa para os que realmente conhecem. Nós acham alegres, enxergam que se algo não te faz feliz, não precisa permanecer, você pode mudar seu destino. 

Roger - Então alguns deles estão dispostos a mudar, mesmo sendo tão individuais?

Paula - Sim! Já vi casos de japoneses que casaram com brasileiros e que mudaram de profissão, saíram da vida de muita pressão e hoje são mais leves. Viram que não precisam ser de acordo com a realidade que eles tem aqui, que eles podem sim criar sua própria sua realidade. 



Roger - Ou seja, pais e filhos japoneses não tem vínculos afetivos como as famílias brasileiras?

Paula - Não, você vê muitas crianças sozinhas, muito independentes! Geralmente quando adultos, saem de casa e pouco aparecem. Idosos então são surpreendentes, fazem tudo sozinhos. Eu morro de dó! Acho triste!

                    "Segundo Paula, em algumas datas as família se
                     se visitam e promovem um reencontro"


Paula - Quando os idosos morrem, seus bens ou são vendidos ou abandonados. Existem muitas casas abandonadas aqui que os filhos nem aparecem para dar um fim. Se eu te contasse tudo o que vejo aqui, você não tem ideia...

Roger - Você citou o presidente, e a pandemia? Qual a visão que eles tiveram do nosso governante perante a pandemia?

Paula - Totalmente inconsequente! Os próprios japoneses falam que estão perdidos com esse presidente. 

Roger - Falando sobre cultura, essa diferença entre elas, o que mais lhe chamou atenção?

Paula - Acho que a maior diferença para mim, seja a questão da passividade. Porque nós brasileiros somos muito questionadores, no trabalho, na consulta médica, nas escolas. Somos muito questionadores e o japonês tem uma postura muito passiva, de aceitar tudo o que é falado, então acredito que essa seja a maior. 



Roger - Imagino que quando você conta para eles sobre a nossa cultura, vivência entre família, há também um estranhamento né?

Paula - Sim! Muitos japoneses não gostam de brasileiros, porque acham que somos barulhentos , risonhos demais. Sofremos com isso na pandemia, porque a fama de aglomeração aqui caiu na nossa cabeça (risos). 

                De acordo com Paula Mantovani campanhas foram
                produzidas para que as pessoas não andassem em                          grupos

            "Algumas províncias até fizeram campanha na TV pedindo
para não andar com estrangeiros, brasileiros não se abraçarem, se encontrarem, fazer churrasco, enfim... Depois pediram desculpas, mas sempre tem as alfinetadas"

Roger - Você falou sobre a visão do presidente, quando chegou ai, tinha uma visão parecida?

Paula - Antes de vir assisti muitos canais no Youtube e vim sabendo como era na verdade. Mas quando cheguei aqui fui sentindo também a energia. É diferente quando você vem para morar e quando você vem a passeio e só pesquisa pontos turísticos. É um outro olhar! Um olhar de respeito pela história de outros, mas também de tristeza. 

Roger - O mais sente falta do Brasil?

Paula - Família sempre! Mas falo com eles todos os dias praticamente, mas comida e lugares. Nada aqui tem o mesmo sabor, que temos no Brasil, nada! Sofri muito no começo para comer, de um simples ovo, queijo, arroz. Eu geralmente cozinho em casa, mas os alimentos não tem o mesmo sabor. Hoje já estou mais adaptada mas, não é o mesmo sabor. E lugares, meu Espírito Santo é lindo demais e o Brasil é um país abençoado pela natureza. 

      Paula também chama atenção para uma falta, que segundo ela, no Japão é bastante atrasada... a saúde.

Paula - Outra coisa que sinto falta e não posso deixar de falar é sobre a saúde. É muito atrasada!  Difícil encontrar uma solução para sua queixa. Demora muito um diagnóstico preciso. E quando chega o diagnóstico a gente dúvida. É o que mais tenho medo aqui. É o item que me faria entrar no primeiro avião e ir ao Brasil. Nossa medicina é muito mais avançada, os médicos são mais dispostos, mais rápidos, tem mais conhecimento!

Roger - Enquanto no Brasil muitos acham nosso sistema falido, você menciona totalmente ao contrário!

Paula - Juro! Ir ao médico é um teste de paciência e apreensão. Os japoneses não tem o costume de questionar. Então não questionam médicos, professores, chefes. E o brasileiro questiona tudo. Tem muitas clinicas que nem gostam de atender brasileiros porque questionam mesmo. 

            A vantagem é que aqui você não vê gente em corredor. Tem  hospital que parece shopping. É tudo muito bonito, limpo, você é bem atendido. Mas a medicina em si é muito atrasada para diagnóstico, infelizmente! Tem tudo para ser um lugar excelente nessa área mas, acaba nos deixando inseguros. Mesmo que as pessoas vivam muito tempo. Não sei qual o segredo (risos), deve ser não ser sedentários. 

Roger - Indicaria para quem quer morar no país, fazer a mesma pesquisa que fez?

Paula - Indico sim, pesquisar e saber como é a realidade. A jornada de trabalho, o clima. Pesquisar sobre a região que vai morar, é muito importante!

Roger - Uma curiosidade, quando começou a pandemia aí, houve muitos casos de xenofobia, como aconteceu aqui no Brasil contra chineses?

Paula - Aqui para os japoneses, estrangeiro é qualquer um que não é japonês. Então são xenofóbicos por natureza. A pandemia deixou os japoneses apavorados. Aconteceu o mesmo que no Brasil. Busca por alimentos, papel higiênicos, prateleiras vazias e ninguém chegava perto de estrangeiros. Agora já deu uma acalmada. Mas o preconceito contra chineses foi discreto, aqui moram muitos chineses também.  

Roger - Agora falando em adaptação, como foi a sua em relação ao fuso horário?

Paula - Eu achava que não me adaptaria. Mas além do fuso horário tem o horário de trabalho. Eu saio de casa para trabalhar normalmente às 15:30, e trabalho das 17:30 às 2:35  geralmente. Quando tem muito trabalho vamos até ás 6 da manhã. Me adaptei rápido. Já acostumei com esse horário e em dormir durante o dia, dormi pouco. Mas tem jornada de trabalho piores aqui. 

Vídeo cedido por Paula



Roger - Quando você fala em jornada piores....


Paula - Trabalhar uma semana no turno de dia e outra no noturno. Trabalhar quatro dias corridos e folgar 2 alternando turnos diurno e noturno. Fazer rodízios em 3 horários de trabalhos diferentes. E ter muitas horas de trabalhos, 12 horas, 15 horas, 17 horas... Quem aguenta faz pelo dinheiro. Na verdade é na hora extra que se ganha dinheiro.

Roger - E aí você trabalhava em RH, conhece sobre leis trabalhistas. O Brasil discute muito sobre essas leis. E como elas são aí?

Paula - As leis são em diferentes até para nacionalidades diferentes. Alguns têm salários diferentes. Alguns têm salários menores, outros não tem direito a ir de transporte automotivos. Tem que ir pedalando faça chuva ou faça sol. Férias remuneradas existem no papel, mas é difícil tirar porque você fica refém para manter seu emprego. Você perde o direito até de receber se não gozar as férias. Isso é ruim porque o governo não fiscaliza e quando denunciam falam que você tem que procurar se entender com o empregador. Aqui também paga tudo. Seu uniforme, sua alimentação, do sapato ao capacete, os equipamentos de proteção. Acho muito falho o governo não fiscalizar. Outra diferença também é que aqui recebemos por hora trabalhada. Não é salário fixo. É tudo bem diferente, não é ruim, mas o funcionário não tem voz como no Brasil. 

Roger - Esse 'fica refém' é uma cobrança da empresa ou pessoal?

Paula - De ambas as partes. As empresas não gostam de ausências e querendo ou não, quanto mais você trabalha, mais você recebe. 

Roger - Como você se enxerga daqui a há dez anos? Quais são os planos entre casal e pessoal, você ainda se vê morando aí?

Paula - Mesmo com tudo isso que falei, a moeda aqui é muito boa. E temos acesso a uma qualidade de vida que não é possível no Brasil. Nossa ideia era vir e morar por cinco anos. Porém, não me imagino atuando na mesma área que trabalhava. Morar aqui, apesar de tudo isso, me traz uma paz muito grande. Porque meu interior mudou bastante. Aqui eu sinto mais paz, mais segurança, mais tranquilidade na mente. A gente também faz o lugar. Expor essas outras questões é para mostrar que essa realidade que existe, mas que podemos criar a nossa realidade de uma forma positiva e focar no que nós faz bem. Também com pandemia, não vale a pena retornar. Quero ir passear e uma hora vamos retornar. A velhice aqui não é bom de viver. A aposentadoria é um valor que você não consegue se manter. Então não há possibilidade, a meu ver de morar para sempre. Mas acredito que por um bom tempo. 

Roger - E quais são as vantagens e desvantagens de morar no Japão, analisando tudo o que fora falado?

Desvantagem: distância do Brasil, vida um pouco mais corrida durante a semana, vida social diferente, questão de saúde que tem um sistema diferenciado, cultura de trabalho inflexível, desastres naturais, barreira do idioma, preconceito contra estrangeiro. 

Vantagem: Segurança, acessibilidade,  devido a moeda, bom sistema de transportes, serviços de qualidade, respeito ao espaço do outro, bom uso do dinheiro do público, honestidade, cultura rica em rituais. 

Roger - Imagino que essa questão dos desastres naturais deve deixar muita gente apavorada né?

Paula - Os órgãos responsáveis são muito precisos nas informações referentes a isso e a previsão do tempo no geral. Algumas causam preocupação sim.


Roger - Você passou por algum aí não foi?

Paula - Passou um tufão grande ano passado aqui. Foi bem tenso! Sábado passado também passou um bem aqui onde moro. Mas também depende da estrutura de cada lugar. Se é próximo ao mar, dos rios, se ecoa bem a água. Graças a Deus onde moro tem uma boa estrutura. E as estruturas das casas e a apartamentos são diferentes. 


De acordo com a revista 'Galileu' no Japão
a temporada de Tufões começa em maio e só
termina em outubro. 


Roger - E sua reação quando soube?

Paula - Fiquei com medo! Avisei a família. Nesse dia, muitos locais fecharam. Não tinha visto nada nessa proporção. Recebemos alertas também pelo celular. Atualmente, tem um tufão se formando e está preocupante, bem na direção de onde moro. Então é aguardar as instruções e acompanhar a meteorologia. Precisando, tem os abrigos. 

Imagem cedida pela entrevistada



Roger - Então eles avisam por telefone também?

Paula - Sim, é um alerta sonoro e tem texto pelo celular. Se precisar, passam os bombeiros avisando. Eles são bem criteriosos com os alertas. Tanto de terremotos, tufão ou chuva forte. 







Comentários

Anônimo disse…
Pior que seja o Brasil ainda é melhor que muitos países

Que tal um pijaminha para viajar, da grife do ex-BBB Tiago Abravanel

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