Brasileiras são agredidas na saída de boate em Portugal; relembre outros casos de xenofobia que chocaram o país


 

            Duas brasileiras denunciaram agressões físicas e ataques xenófobos após um episódio ocorrido na madrugada de 31 de outubro, na região de uma boate em Lisboa, capital de Portugal. As mulheres aguardavam um carro solicitado por aplicativo quando foram surpreendidas por um homem em uma motocicleta, que teria avançado com o veículo sobre a calçada e, depois de uma discussão, passado a agredi-las. O caso foi denunciado à Polícia de Segurança Pública (PSP) portuguesa como crime de ódio e xenofobia. As duas receberam o estatuto oficial de vítimas.

            Segundo informações publicadas pelo veículo português Pois Notícias, reproduzidas pelo UOL, uma das vítimas é uma chefe de cozinha de 37 anos. Ela relatou que o motociclista avançou em direção às duas mulheres e, após ser questionado, começou a agir de maneira agressiva. Durante o episódio, teria desferido socos e utilizado o capacete que carregava para atingir as brasileiras.

            A chefe de cozinha sofreu ferimentos na boca e precisou levar pelo menos cinco pontos. A outra vítima, uma cinegrafista de 35 anos, teve uma fratura exposta no tornozelo direito e precisou ser hospitalizada. Segundo informações divulgadas por um amigo das mulheres, ela aguardava cirurgia e poderia passar meses sem conseguir apoiar o pé no chão, ficando temporariamente impossibilitada de trabalhar.

            Além das agressões físicas, as brasileiras denunciaram manifestações de preconceito e comentários machistas. Uma delas afirmou ter ouvido de pessoas que estavam no local frases como "volta para a sua terra". Segundo testemunhas que pediram anonimato, os seguranças que se aproximaram da ocorrência teriam defendido o motociclista e feito comentários xenófobos.

            Uma produtora de uma festa brasileira realizada no estabelecimento contou que tentou questionar a postura dos seguranças e ouviu que o agressor teria razão. Ela também relatou ter escutado a frase: "No meu país é assim, não sei como é no seu país". Uma das vítimas confirmou que ouviu comentários para que as brasileiras voltassem ao próprio país. 


O que disse a boate


            Em nota, a casa noturna, cujo nome não foi divulgado nas reportagens consultadas, afirmou que foi a primeira a entrar em contato com a Polícia de Segurança Pública e que o homem apontado como agressor não faz parte de seu quadro de funcionários nem integra sua equipe de segurança, que é terceirizada.

            O estabelecimento também apresentou uma versão diferente sobre a atuação dos profissionais de segurança. Segundo a nota, eles teriam tentado apaziguar a situação e evitar novos episódios de violência.

            A boate ressaltou que a ocorrência aconteceu na área externa e não teve relação com suas atividades. Informou ainda que disponibilizou as imagens das câmeras de segurança às autoridades e que colaboraria com as investigações.

            O estabelecimento rejeitou categoricamente as acusações de comportamento machista, xenófobo ou homofóbico e afirmou que inclusão e respeito são princípios inegociáveis. Também atribuiu o episódio a comportamentos relacionados ao consumo excessivo de álcool e substâncias ilícitas, que, segundo sua versão, teriam provocado manifestações ofensivas.

            Até o momento, as reportagens consultadas não informaram se as duas brasileiras são residentes em Portugal ou se estavam no país como turistas.


Outros brasileiros já denunciaram agressões e xenofobia em Portugal


            O episódio de Lisboa não é o primeiro caso de brasileiros que relatam agressões e manifestações xenófobas em território português. Nos últimos anos, ocorrências em cidades como Porto, Braga, Faro e Lisboa ganharam repercussão na imprensa e provocaram manifestações de entidades e movimentos sociais.

  

         Em julho de 2022, a jornalista brasileira Aline Lima denunciou ter sido agredida verbal e fisicamente por um homem dentro de um trem em Portugal. Segundo reportagem do UOL, o episódio começou após uma discussão envolvendo um patinete motorizado que ela transportava. 

            Durante o desentendimento, o homem teria mandado a brasileira voltar para seu país e, em seguida, atingido seu rosto com uma sacola. Aline gravou parte da situação e registrou ocorrência na Polícia de Segurança Pública de Braga.

            No mês seguinte, outro caso ganhou repercussão na cidade de Faro, no Algarve. O brasileiro Douglas Rosa foi espancado após uma confusão na saída de uma boate. Ele estava comemorando o aniversário de uma amiga com a esposa quando, segundo os relatos, funcionários do estabelecimento pediram que o grupo parasse de cantar músicas latinas.

            Depois de serem retirados do local, Douglas e outros participantes da comemoração teriam sido agredidos. O brasileiro sofreu ferimentos graves e precisou passar por cirurgia plástica no rosto. Sua esposa, Gislene Rosa, denunciou que o episódio teve motivação xenófoba. A boate Call In Faro afirmou, na ocasião, que houve uma troca de agressões envolvendo pessoas que não pertenciam à empresa e declarou que não compactuava com comportamentos preconceituosos.

            Em novembro de 2023, a jornalista brasileira Grazielle Tavares, de 49 anos, denunciou ter sido agredida por um colega português dentro da Universidade do Minho, em Braga. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a estudante afirmou que recebeu socos no rosto e na barriga, além de ouvir comentários xenófobos e insinuações de que pagaria seus estudos por meio da prostituição. O episódio teria sido presenciado por outros estudantes.

            No final de dezembro de 2023, um casal brasileiro também denunciou uma agressão na cidade do Porto. O caso aconteceu na Avenida Paiva Couceiro e levou o movimento SOS Racismo a se manifestar publicamente. A entidade considerou que a ocorrência poderia envolver motivações racistas, xenófobas e homofóbicas. A Polícia de Segurança Pública identificou seis suspeitos da alegada agressão.

            Em setembro de 2024, dois brasileiros que trabalhavam nas proximidades da Casa Odara, espaço cultural administrado por imigrantes no Porto, denunciaram ter sido espancados por dois homens. As vítimas, identificadas como Jhon Pereira e Maria Gabriela Carvalho, relataram que ouviram ofensas como "volta para tua terra" antes das agressões. O caso foi registrado na polícia, e os brasileiros passaram por avaliação médica. A ocorrência também motivou uma manifestação contra o racismo e a xenofobia na cidade.

            Já em fevereiro de 2025, três jovens brasileiros, com idades entre 20 e 22 anos, denunciaram agressões em Braga. Segundo o jornal português O MINHO, um homem teria feito comentários ofensivos sobre brasileiros e atingido um dos jovens com um soco inglês, provocando ferimentos na região da orelha. O suspeito, descrito como empresário e proprietário de um bar no centro da cidade, foi identificado pela PSP.

            Em abril de 2025, a Deutsche Welle publicou uma reportagem reunindo relatos de brasileiros que vivem em Portugal e enfrentaram situações de racismo e xenofobia. Entre eles estava o de Priscila Valadão, que afirmou ter sido chamada de "macaca" e "puta", além de relatar uma agressão com uma bengala após ouvir de um homem que deveria voltar para seu país.

            Mais recentemente, em outubro de 2026, uma motorista brasileira denunciou ter sido vítima de insultos xenófobos e agressão em Aveiro. Segundo reportagem publicada pelo jornal português Público, a mulher relatou ter ouvido a expressão "vá para a favela". A PSP investigava a ocorrência como possível crime de xenofobia.


Como brasileiros devem agir diante de casos de xenofobia em Portugal?


            Os episódios servem de alerta para brasileiros que vivem em Portugal ou estão no país a passeio. Independentemente da situação migratória ou do tempo de permanência, quem sofre agressões, ameaças ou discriminação em razão da nacionalidade deve procurar as autoridades e registrar o ocorrido.

            Em situações de perigo imediato ou quando houver necessidade de socorro, a orientação é ligar para o número de emergência 112, disponível em Portugal.

            Depois de garantir a própria segurança, a vítima deve procurar uma esquadra da Polícia de Segurança Pública (PSP) ou um posto da Guarda Nacional Republicana (GNR) para registrar a ocorrência. Também é possível apresentar denúncia à Polícia Judiciária (PJ), ao Ministério Público ou utilizar os canais oficiais de denúncia disponíveis no país.

            É importante reunir o máximo possível de informações e provas: fotografias de ferimentos, vídeos, mensagens, gravações, dados de testemunhas, localização e horário do episódio. Em caso de agressão física, procurar atendimento médico também é fundamental, inclusive para obter documentação dos ferimentos.

            A orientação é relatar detalhadamente as ofensas relacionadas à nacionalidade ou à origem da vítima. Mesmo que o agressor não seja identificado, é possível apresentar uma denúncia. De acordo com o Ministério da Justiça português, não é necessário contratar advogado, saber classificar juridicamente o crime ou pagar para registrar uma denúncia.

            Além da ocorrência policial, casos de discriminação racial e xenofobia podem ser comunicados à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR), entidade portuguesa responsável por receber e analisar esse tipo de queixa.

            Outra possibilidade é procurar a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que oferece atendimento gratuito e confidencial pelo telefone 116 006, em dias úteis, das 8h às 23h.

            O alerta também vale para turistas brasileiros. Quem está em Portugal apenas de férias deve adotar os mesmos cuidados: procurar a polícia, guardar provas e buscar atendimento médico quando necessário. Não é preciso ser residente ou possuir autorização de residência para comunicar às autoridades que foi vítima de um crime.

            Os relatos mostram que as denúncias envolvem diferentes situações, desde discussões em espaços públicos até agressões em casas noturnas, universidades e ambientes de trabalho. Para quem vive ou pretende visitar Portugal, conhecer os canais de proteção e denunciar episódios de discriminação é uma forma de evitar que essas situações sejam naturalizadas.




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