O sino e as torres que sobreviveram aos terremotos de Arequipa

Sino e torre da Catedral  de Arequipa guardam histórias de terremotos
que assombraram a cidade




                    Quem chega à Plaza de Armas de Arequipa encontra uma das imagens mais conhecidas da Cidade Branca: a imponente Catedral construída em sillar, com suas duas torres dominando a praça. O que pouca gente imagina ao olhar para elas é que as estruturas que hoje fazem parte do cartão-postal da cidade já foram destruídas por terremotos e precisaram ser reconstruídas.

                    E não apenas uma vez.

                    A história da Catedral está diretamente ligada à própria história sísmica de Arequipa. A cidade, localizada em uma das regiões de maior atividade sísmica do Peru, foi atingida ao longo dos séculos por terremotos que deixaram marcas profundas em igrejas, conventos e construções históricas. A Catedral também passou por diferentes episódios de destruição e reconstrução, mas o terremoto de 13 de agosto de 1868 seria um dos mais devastadores.

                    O terremoto atingiu o sul do Peru com enorme intensidade e provocou uma destruição generalizada em Arequipa. A Catedral sofreu danos graves e as duas torres desabaram, além de outras partes do templo, como elementos da fachada, arcos e altares.

                    A reconstrução mudou novamente a paisagem da Plaza de Armas. As torres foram refeitas e voltaram a ocupar o lugar de destaque que possuem até hoje. Por isso, quando o visitante observa atualmente aquelas duas estruturas, está olhando para construções que carregam uma história de reconstrução iniciada há mais de 150 anos.

                    E é justamente no alto dessas torres que outra parte dessa história aparece.

                    Entre os sinos da Catedral está a conhecida Monteruda, uma das maiores e mais tradicionais campanas do templo. Seu som fez parte da vida de Arequipa durante diferentes períodos e os sinos da Catedral tiveram funções que iam muito além das cerimônias religiosas, sendo utilizados para convocar a população em momentos importantes da história da cidade.

                    A história das campanas, entretanto, também exige cuidado. Existem registros de diferentes peças que receberam o nome de Monteruda ao longo do tempo, por isso não é correto simplesmente afirmar que o sino atualmente instalado na torre é exatamente a mesma peça que estava ali durante o terremoto de 1868. O que se sabe é que os sinos fazem parte da memória histórica da Catedral e acompanharam diferentes momentos de sua existência.

Mais de um século depois da destruição provocada pelo terremoto de 1868, a Catedral voltaria a enfrentar a força da terra.

                    Em 23 de junho de 2001, um forte terremoto atingiu o sul do Peru e voltou a causar graves danos ao centro histórico de Arequipa. Dessa vez, uma das torres da Catedral desabou e a outra ficou seriamente danificada. A estrutura que caiu atravessou a abóbada do templo, provocando também danos no interior da construção.

                    A Catedral precisou novamente passar por um processo de recuperação. As torres foram restauradas e reforçadas, e a construção voltou a ocupar seu lugar na Plaza de Armas.

                    É impossível olhar hoje para as duas torres sem conhecer essa história. A que parece tão sólida diante dos visitantes já foi colocada abaixo por um terremoto. E a que está ao seu lado também já precisou ser reconstruída.

                    O mesmo acontece com os sinos. No alto da Catedral, eles ajudam a contar uma história que muitas vezes passa despercebida para quem visita Arequipa apenas para fotografar a Plaza de Armas.

                    A cidade, afinal, aprendeu ao longo de sua história que os terremotos fazem parte de sua realidade. Lima, Cusco e outras regiões do Peru também carregam marcas de grandes sismos, e especialistas continuam estudando o risco de novos terremotos de grande magnitude no país. O que a ciência ainda não consegue determinar é quando eles irão acontecer.

                    Por isso, visitar a Catedral de Arequipa é muito mais do que conhecer um dos cartões-postais da cidade. É entrar em contato com uma construção que já foi destruída, reconstruída, novamente danificada e outra vez recuperada.

                    As duas torres que hoje aparecem nas fotografias da Plaza de Armas são, na verdade, parte dessa história.

                    E, lá no alto, os sinos continuam lembrando que, em Arequipa, até mesmo aquilo que parece permanente já precisou um dia ser reconstruído.




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